Quando nada já me prendesse à Pátria, ainda a ella me prenderia a língua, que reputo das mais bellas e expressivas, embora hyperbolica e diffusa. Porém, disciplinada por mão simultaneamente doce e firme, a lingua portugueza é um admiravel signo do pensamento e tem, sempre outras, nas horas decisivas, um fremito passional que arrebata. Desfeiteada por uma geração iconoclasta, não seria de extranhar que lhe perdessemos aquelle antigo amôr, sem o qual os Academicos, os sabios, os cenaculos, a tradição. e até o paiz não teriam razão de existir. Porém, seja Deus louvado! Ainda ha quem a escrêva e quem a leia, pondo na leitura e na escripta o melhor da sua attenção e da sua alma. E então se reconhece que a nossa lingua tem a dureza do granito, a flexibilidade do aço, a fluidez da agua, a transparencia do crystal e a doçura do mel. Sem a pieguice da italiana, a cujos registos medio e grave falta virilidade, a lingua portugueza traduz admiravelmente os mais delicados cambiantes do sentimento;mas quem n'ella quizer imprecar, rugir, fulminar ou deslumbrar, terá apenas o embaraço da escolha entre vocabulos e expressões, figuras e tropos, idiotismos e proloquios. Se a historia pátria foi, até Alcacer-Quibir, uma opera, no sucesso, no scenario, na indumentaria, nos personagens, a língua é bem o seu instrumental, desde o quartetto de corda até às palhetas e aos metaes. Faz-se d'ella o que se quer, porque na sua plasticidade é infinita. Tem côr, tem som, tem luz e, quando é preciso, uma grandeza de Santo Imperio ou Grande Seculo.
Lisboa, 13 de Março de 1917
Cunha e Costa
(Conforme o original)
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Eu conservava na minh'alma a fé
Mais viva e pura de um afecto brando,
Nascido em nós...sem que se saiba quando!
Tornado amor...sem se saber porquê!
E essa afeição, tal como eu a senti,
teve o poder de dar-me até a crença
De vez no mundo uma verdade imensa,
Porque o olhei, sempre através de ti!
Porém mentiu-me o teu olhar profundo!
O teu amor soube arrancar-me a fé!
E...faz-me pena, muita pena crê...
Ter de te ver hoje através do mundo!
Por isso eu choro! é que a minh'alma vê
Que tudo é falso! até um afecto brando,
Nascido em nós...sem que se saiba quando...
Tornado amor...sem se saber porquê!...
Maria Candida Parreira
Assistindo ao teatro da vida...
Se considerarmos o momento em que a cortina de um palco é fechada, dividindo a sala em dois mundos tão diferentes como a plateia e os bastidores, também os nossos olhos quando encerram para o habitual período de repouso, dividem a nossa vivência em dois mundos completamente diferentes.
A minha intenção é relacionar a ligação entre estes dois mundos separados por uma cortina e estudar a perspectiva de quem na plateia analisa os bastidores, mas também de quem instalado nos bastidores, tem capacidade para analisar toda a plateia.
Sonhos... ficção ou algo mais?